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Como voltar ao mercado depois da licença-maternidade, sem recomeçar do zero

A pausa não apaga a sua trajetória. O que muda é a forma de apresentá-la, para o mercado e para você mesma.

Por Jessica Renault8 de outubro de 20267 min de leitura
Mulher escrevendo em uma agenda semanal aberta sobre uma mesa de mármore, ao lado de cartelas em tons de areia e bege

Voltar a trabalhar depois da licença-maternidade raramente é só "voltar". Muitas mulheres descobrem, nesse momento, que o lugar de antes já não existe, ou que já não querem ocupá-lo do mesmo jeito. E, diante de tanta mudança, surge uma sensação injusta: a de que seria preciso recomeçar do zero.

Não é. A experiência que você construiu antes da pausa continua lá. O desafio está em reorganizá-la para a fase que começa agora. Neste artigo, você vai entender o que os dados mostram sobre esse momento, por que o retorno parece tão difícil e como planejá-lo com estratégia, em cinco passos.

O que os dados mostram sobre a volta ao trabalho

Um estudo da FGV EPGE, conduzido pelos economistas Cecilia Machado e Valdemar Pinho Neto, acompanhou mais de 247 mil mulheres que tiraram licença-maternidade em 2009 e em 2012, a partir dos registros oficiais de emprego formal do país.

48%

foi a queda no emprego formal dessas mulheres um ano depois do início da licença. A queda se manteve nos anos seguintes: quase metade continuava fora do emprego formal até quatro anos depois.Fonte: Machado e Pinho Neto, FGV EPGE.

Dois pontos do estudo ajudam a entender esse número. O primeiro: a maior parte das saídas aconteceu por iniciativa do empregador, logo depois do fim do período de estabilidade. Ou seja, muitas mulheres não escolheram sair. O segundo: mulheres com mais escolaridade se mantiveram mais no emprego, mas a queda atingiu todos os grupos.

Trago esses números por um motivo simples: a pausa não é uma exceção na trajetória das mulheres. Ela faz parte de muitas carreiras, por escolha ou não. Tratá-la como um "buraco no currículo" ignora uma realidade que os dados mostram há anos.

A pausa não apaga a sua trajetória

Quem volta depois de uma pausa não volta do zero. Volta com a mesma formação, a mesma experiência e as mesmas conquistas. Muitas vezes, volta também com mais clareza sobre o que não quer repetir.

O desafio raramente é competência. É reenquadrar a trajetória para que o mercado, e você mesma, enxerguem o valor que continua lá.

Essa é a diferença entre recomeçar e reposicionar. Recomeçar parte do pressuposto de que o passado perdeu valor. Reposicionar parte do que você já construiu e decide, com critério, como usar isso na próxima fase.

Por que o retorno parece tão difícil

Na maioria dos casos, o que trava o retorno não é falta de capacidade. São três armadilhas que aparecem juntas:

  • Voltar no automático. Buscar o mesmo cargo, no mesmo tipo de empresa, com o mesmo ritmo, sem antes perguntar se aquilo ainda faz sentido para a sua vida de hoje.
  • Pedir desculpas pela pausa. Apresentar o período fora como algo a ser justificado, em vez de um capítulo da trajetória.
  • Desvalorizar a própria experiência. Sentir que o mercado "andou" e que tudo o que você sabe ficou para trás, quando a maior parte das suas competências continua atual.

As três têm a mesma raiz: falta de uma direção clara. Sem direção, qualquer oportunidade parece obrigatória, e qualquer recusa parece um risco.

5 passos para planejar o retorno com estratégia

Decida o que você não quer repetir

Antes de pensar em cargos, liste o que precisa ser diferente nesta fase: jornada, deslocamento, tipo de liderança, ritmo, nível de exposição. Esses critérios vão filtrar as oportunidades por você e evitar que você aceite a primeira proposta só por medo de ficar de fora.

Faça o inventário do seu capital profissional

Liste três resultados de que você se orgulha. Para cada um, escreva qual problema estava resolvido no final e quais competências você usou para chegar lá. Inclua também as suas relações profissionais e o repertório que você acumulou. O que se repete entre os resultados costuma ser o centro do seu valor, independentemente do cargo.

Escolha a direção antes do cargo

Quem tem uma trajetória sólida costuma enxergar só duas opções: voltar para o mesmo lugar ou começar do zero. Entre esses extremos existem pelo menos três caminhos:

  • Mesmo campo, novo papel: para quem ainda gosta do tema, mas não do papel que ocupava.
  • Nova área, mesmas competências: para quem cansou do contexto, não do que sabe fazer.
  • Autonomia construída sobre a experiência: para quem quer escolher como, quando e com quem trabalhar.

Nenhum é melhor que o outro. A escolha certa depende do que você quer preservar e do que é essencial nesta fase.

Reenquadre a forma de falar da pausa

A pausa precisa de uma frase, não de uma defesa. Uma boa frase reconhece o período, sem detalhes desnecessários, e logo aponta para a frente: o que você traz e o que busca agora.

Antes

"Fiquei dois anos parada por causa da maternidade, mas estou me atualizando."

Depois

"Depois de uma pausa dedicada à maternidade, volto para atuar em gestão de projetos, área em que liderei entregas por 12 anos."

Use a mesma lógica no resumo do currículo, no LinkedIn e na resposta de entrevista. A consistência transmite segurança.

Reative a sua rede com intenção

Faça uma lista de dez pessoas que conhecem o seu trabalho. Em vez de pedir uma vaga, peça uma conversa para entender como a área delas mudou. Conversas de pesquisa abrem portas com menos pressão, para os dois lados, e ajudam você a testar a direção escolhida antes de se comprometer com ela.

Por onde começar

O primeiro passo não é atualizar o currículo nem disparar candidaturas. É entender em que momento você está: o que mudou, o que continua valendo e qual direção merece ser testada primeiro. Com essa clareza, cada decisão seguinte fica mais simples.

Jessica Renault

Jessica Renault

Mentora de reposicionamento profissional e criadora do Método REFRAME

Trabalha com mulheres experientes que querem mudar de direção ou voltar ao mercado depois de uma pausa, com estratégia e sem recomeçar do zero. Formação: FGV e Yale School of Management.

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