Como voltar ao mercado depois da licença-maternidade, sem recomeçar do zero
A pausa não apaga a sua trajetória. O que muda é a forma de apresentá-la, para o mercado e para você mesma.
Voltar a trabalhar depois da licença-maternidade raramente é só "voltar". Muitas mulheres descobrem, nesse momento, que o lugar de antes já não existe, ou que já não querem ocupá-lo do mesmo jeito. E, diante de tanta mudança, surge uma sensação injusta: a de que seria preciso recomeçar do zero.
Não é. A experiência que você construiu antes da pausa continua lá. O desafio está em reorganizá-la para a fase que começa agora. Neste artigo, você vai entender o que os dados mostram sobre esse momento, por que o retorno parece tão difícil e como planejá-lo com estratégia, em cinco passos.
O que os dados mostram sobre a volta ao trabalho
Um estudo da FGV EPGE, conduzido pelos economistas Cecilia Machado e Valdemar Pinho Neto, acompanhou mais de 247 mil mulheres que tiraram licença-maternidade em 2009 e em 2012, a partir dos registros oficiais de emprego formal do país.
foi a queda no emprego formal dessas mulheres um ano depois do início da licença. A queda se manteve nos anos seguintes: quase metade continuava fora do emprego formal até quatro anos depois.Fonte: Machado e Pinho Neto, FGV EPGE.
Dois pontos do estudo ajudam a entender esse número. O primeiro: a maior parte das saídas aconteceu por iniciativa do empregador, logo depois do fim do período de estabilidade. Ou seja, muitas mulheres não escolheram sair. O segundo: mulheres com mais escolaridade se mantiveram mais no emprego, mas a queda atingiu todos os grupos.
Trago esses números por um motivo simples: a pausa não é uma exceção na trajetória das mulheres. Ela faz parte de muitas carreiras, por escolha ou não. Tratá-la como um "buraco no currículo" ignora uma realidade que os dados mostram há anos.
A pausa não apaga a sua trajetória
Quem volta depois de uma pausa não volta do zero. Volta com a mesma formação, a mesma experiência e as mesmas conquistas. Muitas vezes, volta também com mais clareza sobre o que não quer repetir.
O desafio raramente é competência. É reenquadrar a trajetória para que o mercado, e você mesma, enxerguem o valor que continua lá.
Essa é a diferença entre recomeçar e reposicionar. Recomeçar parte do pressuposto de que o passado perdeu valor. Reposicionar parte do que você já construiu e decide, com critério, como usar isso na próxima fase.
Por que o retorno parece tão difícil
Na maioria dos casos, o que trava o retorno não é falta de capacidade. São três armadilhas que aparecem juntas:
- Voltar no automático. Buscar o mesmo cargo, no mesmo tipo de empresa, com o mesmo ritmo, sem antes perguntar se aquilo ainda faz sentido para a sua vida de hoje.
- Pedir desculpas pela pausa. Apresentar o período fora como algo a ser justificado, em vez de um capítulo da trajetória.
- Desvalorizar a própria experiência. Sentir que o mercado "andou" e que tudo o que você sabe ficou para trás, quando a maior parte das suas competências continua atual.
As três têm a mesma raiz: falta de uma direção clara. Sem direção, qualquer oportunidade parece obrigatória, e qualquer recusa parece um risco.
5 passos para planejar o retorno com estratégia
Decida o que você não quer repetir
Antes de pensar em cargos, liste o que precisa ser diferente nesta fase: jornada, deslocamento, tipo de liderança, ritmo, nível de exposição. Esses critérios vão filtrar as oportunidades por você e evitar que você aceite a primeira proposta só por medo de ficar de fora.
Faça o inventário do seu capital profissional
Liste três resultados de que você se orgulha. Para cada um, escreva qual problema estava resolvido no final e quais competências você usou para chegar lá. Inclua também as suas relações profissionais e o repertório que você acumulou. O que se repete entre os resultados costuma ser o centro do seu valor, independentemente do cargo.
Escolha a direção antes do cargo
Quem tem uma trajetória sólida costuma enxergar só duas opções: voltar para o mesmo lugar ou começar do zero. Entre esses extremos existem pelo menos três caminhos:
- Mesmo campo, novo papel: para quem ainda gosta do tema, mas não do papel que ocupava.
- Nova área, mesmas competências: para quem cansou do contexto, não do que sabe fazer.
- Autonomia construída sobre a experiência: para quem quer escolher como, quando e com quem trabalhar.
Nenhum é melhor que o outro. A escolha certa depende do que você quer preservar e do que é essencial nesta fase.
Reenquadre a forma de falar da pausa
A pausa precisa de uma frase, não de uma defesa. Uma boa frase reconhece o período, sem detalhes desnecessários, e logo aponta para a frente: o que você traz e o que busca agora.
"Fiquei dois anos parada por causa da maternidade, mas estou me atualizando."
"Depois de uma pausa dedicada à maternidade, volto para atuar em gestão de projetos, área em que liderei entregas por 12 anos."
Use a mesma lógica no resumo do currículo, no LinkedIn e na resposta de entrevista. A consistência transmite segurança.
Reative a sua rede com intenção
Faça uma lista de dez pessoas que conhecem o seu trabalho. Em vez de pedir uma vaga, peça uma conversa para entender como a área delas mudou. Conversas de pesquisa abrem portas com menos pressão, para os dois lados, e ajudam você a testar a direção escolhida antes de se comprometer com ela.
Por onde começar
O primeiro passo não é atualizar o currículo nem disparar candidaturas. É entender em que momento você está: o que mudou, o que continua valendo e qual direção merece ser testada primeiro. Com essa clareza, cada decisão seguinte fica mais simples.
Jessica Renault
Mentora de reposicionamento profissional e criadora do Método REFRAME
Trabalha com mulheres experientes que querem mudar de direção ou voltar ao mercado depois de uma pausa, com estratégia e sem recomeçar do zero. Formação: FGV e Yale School of Management.
Fontes
- Machado, C.; Pinho Neto, V. The labor market consequences of maternity leave policies: evidence from Brazil. FGV EPGE.
- Monitor Mercantil. Metade das mães que tiram licença estão fora do mercado em dois anos.
